Conferência da Smart Waste Portugal apresenta estratégia para reforçar a competitividade das PME
Abril 29, 2026

No Dia Mundial da Terra, a Casa da Música, no Porto, recebeu a conferência do projeto TransformEC, que promoveu a economia circular junto das pequenas e médias empresas (PME). Foi apresentado o Roadmap de Competitividade para a Economia Circular, que estabelece diretrizes para tornar a indústria transformadora mais eficiente na gestão dos seus recursos.

A Smart Waste Portugal realizou, no dia 22 de abril, a sua conferência anual, no âmbito do projeto TransformEC – Transformação Circular, dedicada ao tema “Economia Circular Competitiva: Conhecer, Inovar e Transformar”, reunindo mais de 150 pessoas representantes de empresas, especialistas, academia e decisores públicos para discutir soluções concretas que acelerem a transição para modelos económicos mais sustentáveis e competitivos.

Catarina Araújo, vice-presidente da Câmara Municipal do Porto, fez as honras da casa, realçando o papel dos municípios na promoção da economia circular, um tema no qual a cidade do Porto tem sido pioneira. Foram apresentados diversos exemplos de iniciativas junto da população e das PME, sublinhando ainda o trabalho desenvolvido pela Smart Waste Portugal neste âmbito.  

Ao longo do encontro, ficou claro que a economia circular é hoje um fator determinante de competitividade, deixando de ser apenas uma prioridade ambiental para assumir um papel estratégico na redução de custos, na inovação e na criação de novas oportunidades de negócio. Segundo Aires Pereira, Presidente da Direção da Smart Waste Portugal, “a economia circular é um eixo estratégico para o futuro da economia portuguesa”.  

A competitividade das empresas portuguesas dependerá, cada vez mais, da sua capacidade de inovar e de otimizar a utilização dos recursos de forma inteligente e eficiente. O representante da Associação acredita que existem “condições para acelerar esta transição, mas isso exige compromisso, colaboração e uma visão clara de longo prazo”.

No alinhamento seguiu-se Norberto Amaral que, num momento inspirador, apontou para a necessidade de se adotarem práticas circulares, referindo que temos um longo caminho para fazer cumprir os 3R’s: reduzir, reutilizar e reciclar. No primeiro temos falhado ano após ano e nos outros dois encontramo-nos estagnados. Dana Puia Morel, representante da Comissão Europeia, apresentou um enquadramento sobre a importância das PME na economia da União Europeia, bem como os principais mecanismos e políticas de apoio a estas – algo que apontou como essencial, dado o impacto dos recentes eventos geopolíticos cujo impacto no tecido empresarial ainda é difícil de prever.

Foi de seguida apresentado o Relatório do Estado do Ambiente da Europa por Regina Vilão, Diretora do Departamento de Estratégias e Análise Económica da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), que permitiu um enquadramento macro do estado atual da circularidade e a sua evolução. Destacou-se o grande progresso ao nível da emissão de gases de efeito estuda, que desde a década de 90 baixou 37%, bem como ao nível da inovação, emprego verde e financiamento. Contudo, os desafios continuam bem patentes com baixas taxas de circularidade e hábitos de consumo pouco sustentáveis.  

O encontro ficou marcado pela apresentação do Roadmap de Competitividade para a Economia Circular, por António Lorena, Managing Partner da 3drivers. Este é um documento estratégico que define ações para tornar a indústria transformadora mais eficiente na gestão de recursos e mais preparada para os desafios da sustentabilidade. O Roadmap identifica desafios relevantes, como a perceção limitada das PME quanto aos benefícios económicos da circularidade e lacunas nos indicadores e sistemas de medição, tornando a temática mais abstrata. Entre as soluções propostas destacam-se a criação de hubs circulares, gabinetes de apoio à certificação, revisão dos critérios de avaliação bancária e o desenvolvimento de um Plano Nacional de Simbioses Industriais.

Concretizando as intenções do Roadmap, a mesa-redonda que contou com Patrícia Castro, da Gintegral, Hernâni Magalhães, da Silvex, e Manuel Pizarro da ZØR, referiu a necessidade de este ser um GPS para orientar as empresas.

A sustentabilidade económica da circularidade é por onde se deve começar, segundo Patrícia Castro, que como representante de um operador de gestão de resíduos, referiu as dificuldades ainda existentes em concorrer com as matérias-primas virgens. Para Hernâni Magalhães, quando se vai à economia real percebe-se que acaba sempre por ser o preço a ditar a decisão das empresas e dos consumidores. É por isso importante que a regulação europeia proteja mais a indústrias do mercado único europeu face aos produtos importados que grande parte das vezes não cumprem os mesmos requisitos ambientais daqueles que são produzidos na Europa. Esta ideia foi reafirmada por Manuel Pizarro, que deu ênfase à necessidade de promover a competitividade e criar condições para o sucesso dos modelos de negócio circulares.  

Para os oradores, existe otimismo em relação ao futuro, mas realçam que há ainda muito a fazer. Hernâni Magalhães sublinha que se tem de começar pela própria casa e destacou que os processos de contratação pública devem também ter um papel mais relevante na incorporação de princípios de economia circular, ao invés de apenas privilegiarem o preço. A literacia é vista como fator-chave, segundo Manuel Pizarro, que destaca ainda a importância da aposta na reutilização. Já Patrícia Castro afirma que “se queres conhecer uma empresa ou uma comunidade, deves conhecer o seu caixote do lixo”, sendo esta a primeira etapa para a transformação. A ideia foi rematada com a comparação a uma orquestra: os músicos têm de estar sensibilizados e capacitados, os instrumentos (empresas) devem estar afinados e a pauta (roadmap) preparada, sendo necessário um bom maestro para que a melodia possa fluir. 

Ao longo da tarde, houve ainda tempo para a apresentação de alguns casos práticos no âmbito do ecodesign, financiamento verde e valorização de recursos, tendo sido convidadas a intervir empresas como a Havelar, Wine2PlasticiTEC-CAPS.  

As várias intervenções do dia evidenciaram que as empresas que integram princípios circulares nos seus processos estão mais bem preparadas para responder aos desafios das cadeias de valor globais e às exigências regulatórias europeias. Contudo, o preço continua a ser um fator decisivo nas escolhas das empresas e consumidores, reforçando a necessidade de uma regulação europeia mais equilibrada e de políticas públicas que valorizem critérios de circularidade.

Este encontro foi encerrado por João Rui Ferreira, Secretário de Estado da Economia, que reforçou a ideia de encararmos a sustentabilidade como um ativo estratégico para a competitividade das empresas, sublinhado ainda que Portugal tem reconhecimento nessa matéria. A reindustrialização verde foi ainda considerada como uma prioridade que está a ser trabalhada para a construção de políticas concretas. “A sustentabilidade não é um custo, mas um investimento”, afirmou.

A conferência destacou a importância do reforço do conhecimento e da capacitação técnica, sobretudo junto das PME, como condição essencial para acelerar esta transformação. A partilha de boas práticas, ferramentas operacionais e casos concretos demonstrou que já existem soluções viáveis no terreno, sendo necessário promover a sua disseminação e adaptação a diferentes setores de atividade. A promoção de simbioses industriais e o reforço da colaboração entre empresas, sistema científico e entidades públicas surgem como áreas prioritárias, permitindo transformar resíduos em recursos e potenciar sinergias que aumentam a produtividade e a sustentabilidade do tecido empresarial.

A iniciativa reforça o papel da Smart Waste Portugal enquanto mobilizadora da transição para uma economia circular em Portugal, promovendo a ligação entre conhecimento, inovação e implementação prática no terreno. O projeto TransformEC, financiado pelo programa COMPETE 2030, no âmbito do SIAC Qualificação, materializa este objetivo, tendo como parceiros a Smart Waste Portugal, o CVR – Centro para a Valorização de Resíduos e o CECOLAB – Laboratório Colaborativo para a Economia Circular.

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